lembrete em meio ao caos

Faz algum tempo que escrever nesse blog é uma forma de colocar pra fora o que anda transbordando por aqui. Ele foi criado lá em 2013, junto com uma amiga, quando eu ainda era uma ingênua e sonhadora menina de 15-quase-16 anos. O tempo passou, mas algumas coisas não mudaram.

Voltei a aparecer por aqui em 2020, auge da pandemia, e dessa vez sozinha. A aflição de passar por aquele período inicial de não saber muito bem o que o futuro reservaria já não era uma sensação tão desconhecida minha — mas algo ali era diferente.

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ruína y leveza

Em um dia desses, passeando pelo blog da Luísa, o Janelas Abertas, me deparei com um post listando alguns livros que falam sobre viagens. Logo um deles me chamou a atenção — a história de uma publicitária viajando solo pelo Peru e levando na bagagem um passado de desconexão consigo mesma. O tempo passou, a vida aconteceu e enfim me vi com o livro em mãos.

Logo após virar a última página, percebi que muito mais do que o clichê do viajar pra se encontrar, Ruína y leveza traz um mergulho nos próprios sentimentos frente ao desconhecido. Seja na cidade onde nasceu, seja numa pequena vila na amazônia peruana, o sentimento de se sentir estrangeira de si é o que move Sara em sua jornada durante as páginas desse livro.

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hoje eu não vou falar de amor

O vento que bate e bagunça o cabelo traz consigo o lembrete do que há muito se foi, mas ficou. Olhos lacrimejando, um espelho frente a um reflexo irreconhecível. A respiração pesada como numa cena em câmera lenta. Escadas. O tempo passa o tempo está passando o tempo passou passou passou. Passará. O ar gelado de uma noite de junho que passará assim como tudo que foi vivido. Lentamente. Abaixa, tira os sapatos e caminha sentindo aquela brisa que faz arrepiar os pelos por todo o corpo. O vestido que brilha reflete as ondas do mar que assiste o fim de algo que jamais poderia ter começado. Deveria ter começado. Não começou. Vira a cabeça e encara aquele mesmo mar, aquela mesma lua que devagar, bem devagar, vai se despedindo de uma noite tempestuosa e o mar — o mar, ele agita aquele ar noturno quase diurno e faz acordar memórias adormecidas. A ressaca que não é só dele. Olhos grandes e castanhos encarando o mar — aquele mar. Sendo tragados para o centro daquela força quase antinatural. A onda violenta quebra quase aos seus pés, que devagar — bem devagar, quase como quem não quer — vai dando distância e tentam a todo custo quebrar o encanto. O vento que bate bagunça o cabelo muda tudo de lugar e mudou, mudou tudo, mudou tanto: impossível reconhecer. Se reconhecer. A lembrança vem como a correnteza que arrasta e distancia da margem como quem embala para dormir. Sem aviso, sem alarde. O ar gelado contrastando com o quente das lágrimas que agora ocupam toda a extensão de um rosto que esconde a própria tempestade. Lembranças violentamente tomando conta — cheiros, toques, o silêncio que precede o começo de algo fadado ao fim. Larga os sapatos que caem na areia fina e ainda molhada: resquícios de horas antecedentes. Paredes brancas lençóis brancos uma janela com vista para o mar — aquele mar. Seca o rosto com a ferocidade de quem esconde o próprio sentir: com a ferocidade e a determinação de quem decreta: é hora de deixar tudo para trás. O ar gelado que sobe de baixo para cima ao contrário de tudo que há muito se foi, mas ficou. A brisa que bagunça o cabelo e faz os olhos arderem — olhos borrados e já secos. Andar na direção contrária ao vento e a tudo o que é confortável e esperado. Cabelos bagunçados embaraçados olhos borrados vermelhos pés descalços cansados deixando para trás as paredes a janela a vista o toque o cheiro a brisa e o mar. Aquele mar.

(título e texto inspirados na música desapaixonar de jade baraldo)

outono

Chove. Chove muito, com uma intensidade tão grande que cada gota que cai reverbera no peito. Chove lá fora como há muito tempo chove aqui dentro. O outono chegou e trouxe com ele uma tempestade já não tão desconhecida.

É estranha a sensação de gostar de tempestades. Parece que as tempestades internas se tornaram tão comuns que as externas me trazem uma sensação indiscutível de familiaridade. Gostar do que a maioria não gosta talvez seja culpa do meu signo, diriam os astrólogos. Mas talvez assumir isso seja apenas a consciência de que preciso deixar para trás uma vida inteira tentando desesperadamente ser normal. 

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o uruguai e eu

O dia está chuvoso e caminho sob uma areia semi molhada. O tênis branco, agora já não tão branco, machuca meus pés e faz de cada passo um pequeno esforço — não que eu precisasse de mais um. Respiro devagar, sentindo aquela dor física, e sigo em frente.

Gostaria de poder fazer o mesmo com a outra dor. A do lado de dentro, a que não deixa as feridas expostas — gostaria de poder senti-la respirando devagar e seguindo em frente. Sem maiores danos, sem grandes dramas. Mas a verdade é que não podemos ignorar a dor, seja ela externa ou interna: uma hora a conta chega.

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cidades afundam em dias normais

“Fomos feitos para partir” é a frase que logo capta toda a minha atenção. Resolvo ir mais a fundo na história e logo me vejo completamente imersa em Cidades afundam em dias normais, de Aline Valek. 

Uma cidade afundando. Um lago que avança, pouco a pouco, e toma conta do que antes era a vida de pessoas. O que elas faziam enquanto aquilo acontecia? Uma tragédia anunciada, alguns poderiam dizer. Será mesmo? Quem tomaria para si a responsabilidade da verdade: é isto, está para acontecer, não há como voltar atrás? 

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amor & gelato

Uma aventura: é esse o sentimento ao virar as páginas de Amor & Gelato, de Jenna Evans Welch. Mesmo tratando de alguns temas pesados, a leveza é a constante na narrativa do livro. 

Conhecemos Lina, uma garota que acabou de perder precocemente a mãe, vítima de um câncer. Ela deixou um único pedido — que Lina embarcasse rumo a Itália para passar um tempo com o pai (que ela nunca conheceu) e conhecer a cidade de Florença, onde sua mãe passou a juventude. 

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tempo de reacender estrelas

Ler esse livro aqueceu meu coração inquieto. Nada como viver experiencias, especialmente com pessoas que amamos, e é precisamente esse o destaque de Tempo de reacender estrelas. Virei a última página querendo visitar cada pedacinho da Escandinávia, ainda mais encantada com o significado que uma viagem pode ter na nossa vida e cheia de esperança de algum dia estar diante das luzes do norte.

Anna é uma mulher que já passou por muita coisa e que decide priorizar o seu relacionamento com as filhas, Chloé e Lily, de quem a rotina pesada do dia a dia a fez se afastar. O livro começa com ela sendo dispensada do trabalho como garçonete de um restaurante, o que a desespera, uma vez que as dívidas não param de aumentar.

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primeiro eu tive que morrer

Um livro sobre renascimento. Sobre chegar ao limite e perceber que é preciso dar um passo para trás para poder seguir adiante. É mais ou menos essa a premissa de Primeiro eu tive que morrer, de Lorena Portela. Inicialmente, tudo me encantou nesse livro – a começar pela belíssima capa, mas não só isso. O título, a sinopse, a atmosfera. A ideia de morrer para renascer.

O começo é bem promissor, com o questionamento “quanto tempo se leva para morrer?”, que me deixou bem intrigada — mas o desenvolvimento da história me decepcionou. Em meio a divagações da protagonista, que são muitas vezes até interessantes, se perdem alguns diálogos superficiais e que não me pareceram muito naturais. Eu tentava imaginá-los acontecendo na vida real, mas não conseguia. Diálogos são um ponto delicado em qualquer narrativa, porque, especialmente em uma história contada em primeira pessoa, é através deles que vamos conhecer a voz dos demais personagens.

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os caminhos até campos do jordão

Visitar Campos do Jordão foi o motivo que impulsionou a minha terceira viagem para São Paulo. A cidade é pequena, fria e muito bonita – daquelas bem com a cara da Europa, por conta da arquitetura e do clima. Fica localizada na Serra da Mantiqueira, a mais ou menos 180 km de distância da capital do estado. 

Era por volta das 15h30 de um domingo quando pegamos as estradas paulistas e seguimos rumo a Campos. Ao chegar, o dia já era noite e a temperatura antes agradável havia se transformado em um frio insistente. Apenas momentos antes, observava pela janela do carro as cores do entardecer que se aproximava, da mesma forma que o nosso destino. Passava pelas cidades imaginando o que fariam naquele momento seus moradores, se estariam satisfeitos pela chegada do frio ou ansiando pelo momento em que ele iria finalmente embora.

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