quem diria que viver ia dar nisso

Eu sempre amei o título desse livro. Lembro de vê-lo na livraria assim que lançou, anos atrás, e de pensar em como gostaria de lê-lo. Isso, porém, só foi acontecer em março desse ano. Quem diria que viver ia dar nisso é um compilado de crônicas da escritora Martha Medeiros, de quem eu passei a gostar muito depois de ler seus relatos de viagem na coleção “Um Lugar na Janela”.

A escrita da Martha é muito envolvente e eu poderia passar uma tarde inteira lendo textos dela. Apesar disso, as crônicas desse livro não conseguiram me fazer amá-lo completamente, porque são bem curtinhas e sobre assuntos variados. Isso dificultou um pouco a minha conexão com ele, acho que prefiro mesmo ler histórias mais longas e vou procurar outros livros dela que possam me proporcionar isso.

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até que venha a manhã

Estamos nos primeiros dias de junho, e eles seguem parecendo todos iguais. Sinto a urgência de eternizá-los de algum modo, sentir que estou vivendo nos detalhes e não apenas sobrevivendo num plano geral. Já tentei diversas vezes documentar esses pequenos momentos em vídeos mensais que me passassem a sensação de vida a ser vivida enquanto assisto. Não deu muito certo, mas ainda não desisti.

Decidi, então, tentar outro formato, e é este aqui: palavra escrita, sentimentos que me escapam em forma de texto. Ainda ontem foi janeiro, e mesmo assim parece que vidas inteiras nos separam. Esse início de ano passou como um borrão, tanta coisa acontecendo e ao mesmo tempo a sensação é de estar parada no tempo. É contraditório e desesperador na mesma proporção.

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o acaso e buenos aires

Quatro meses depois, estou de volta. Puerto Madero me recebe de braços abertos e vento no rosto. De repente tudo parece voltar a fazer um mínimo de sentido – os dias ainda passam devagar, mas já não parecem sem propósito.

Ando pelas ruas da cidade que me acalma. O vento bagunça meu cabelo e eu me questiono em qual esquina ficou a minha felicidade. Buenos Aires me olha com a tristeza de uma mãe que sabe que nada pode fazer para aplacar o sofrimento de uma filha. A não ser deixar que sinta. Que doa. Até que pare de doer. E de sentir. Em um segundo, estou sozinha. Mas será que estou sozinha mesmo?

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esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo

é segunda-feira, o dia amanheceu nublado e com uma ansiedade insistente batendo no peito. o primeiro dia do segundo mês é sempre sinônimo de algo novo. e de recomeços. recomeços são sempre bonitos — e bem vindos. preciso muito deles. 

é necessária muita coragem pra recomeçar. e apesar de não me sentir nem um pouco corajosa no momento em que escrevo isso, repito: eu preciso. sim, recomeçar. 

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o mundo aqui dentro

É dezembro. Tem chovido esses dias, e o cheiro de terra molhada me faz lembrar de renovações, não sei bem o motivo.

Sempre amei o Natal. Acho tudo muito bonito e acolhedor: as luzes, confraternizar com quem a gente ama, a esperança em um ano que está aí novinho e pronto pra chegar. Esse ano, porém, tudo está estranho. As luzes de natal brilham um pouco menos e eu não sei muito bem o que sentir.

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o aconchego e colonia del sacramento

Colonia del Sacramento é uma cidade aconchegante. Tento pensar em alguma outra palavra para definir as ruazinhas calmas e largas que remetem a um outro período da nossa história, mas não sou bem sucedida. Era dia 12 de janeiro e ali seria minha despedida do Uruguai.

Deixar a mochila no quarto privativo – o primeiro naquela viagem – do hostel foi a primeira coisa a ser feita e a definição do aconchego já se fez presente: o hostal de los poetas tinha essa palavra irradiando por todos os cantos. As boas vindas ficaram por conta dos donos e sua filha – além de duas cachorrinhas que fizeram a minha felicidade. Felicidade multiplicada: uma delas tinha acabado de ser mãe. Filhotes de cachorro podem fazer maravilhas para a saúde de uma pessoa e ali não foi diferente.

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à espera do tempo dizer

Tenho vivido em suspenso. Difícil é viver um tempo em que os dias passam devagar e parecem todos os mesmos, todos iguais, o que é uma meia verdade uma vez que eu acordo toda manhã sendo uma versão diferente do que fui ontem e perceber esse fato não o torna mais fácil.

Não o torna mais fácil porque existir em essência me é algo tão natural que muitas vezes levanta inúmeros questionamentos. Não sei ser outra pessoa, não sei sentir de outra forma. A dificuldade em aceitar que aquela que eu sou não poderia jamais existir sem aquela que eu já fui se transforma em uma relação complicada, essa que eu tenho comigo mesma. Mas, veja bem, é numa tentativa de descomplicar e me entender que eu escrevo.

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o azul do mar e piriápolis

No meio do caminho entre Montevideo e Punta del Este fica uma pequena cidade litorânea com o mar dos mais azuis que eu já vi. Piriápolis é pequena, mas agitada. Era por volta das 11h30 da manhã de 11 de janeiro de 2019 quando desembarquei na rodoviária e logo a mudança de ares ficou perceptível.

Se Punta del Este é luxuosa e badalada, Piriápolis tem um clima mais de interior – mas esse clima só dura até a gente encontrar a orla. Deixei minha mochila no hostel e, caminhando, dei de cara com o azul do mar e muitas pessoas, pessoas por todos os lados e de todos os jeitos – tomando banho de mar, tomando sol na areia ou simplesmente tomando um sorvete.

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o que fica depois que tudo passa

É tarde. É mais tarde do que se imagina e o silêncio invade cada milímetro da casa, da minha casa que sou eu mesma. O tempo medido em anos não parece mais suficiente, eu preciso dos instantes. Cada instante que passa é uma vitória conquistada e eu preciso delas. Deles. Dos instantes. 

Eu preciso deles porque o futuro não existe, estou aqui e agora e esse presente carrega o meu passado nos ombros, um fardo ora leve, ora pesado — mas sempre um fardo. Não sei mais o que é viver sem ele — o passado — e cada instante que passa é também uma batalha perdida e um peso a mais nos ombros do próximo momento presente. Esse momento presente.

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o verão e punta del este

O balneário mais famoso da América do Sul não é para amadores. Tive essa sensação logo ao desembarcar do ônibus que me deixou praticamente no coração da Playa Brava e sua principal atração, La Mano. Era fim de tarde e eu estava cansada, mas aguentei firme e, de mochila nas costas, atravessei o caminho não muito movimentado que me deixou frente a frente com a obra de Mario Irarrázabal.

Na beira da praia, finalmente a alta temporada disse a que veio e muitas pessoas por todos os lados completavam o cenário. Pensar Punta del Este é pensar em verão. No inverno a cidade até continua no mesmo lugar, sim, mas me é difícil imaginar como seria o seu clima – talvez seja preciso que eu pague para ver.

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